quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A Crítica de Darwin ao Argumento Teleológico de Paley

Mais uma contribuição do professor Maxwell Morais de Lima Filho para o blog do NEFA. Aqui ele analisa a versão do teólogo britânico William Paley (1743-1805) do argumento teleológico para a existência de Deus. O artigo foi originalmente publicado como o 3º capitulo (pp. 84-108) do livro Filosofia, Religião e Secularização, organizado por Antonio Glaudenir Brasil Maia e Geovani Paulino Oliveira (Porto Alegre: Editora Fi, 2015).

"(...)

Do início da filosofia até aos dias atuais, esta questão tem constantemente permeado os debates filosóficos: Deus existe? Ao longo da história, foram propostos argumentos com o intuito de demonstrar racionalmente a existência de Deus. Podem-se dividir, para efeitos práticos, tais argumentos em quatro tipos, a saber: ontológico, cosmológico, kalam e teleológico. Apenas esse último será tratado neste texto.

O argumento teleológico ou argumento do desígnio foi apresentado de diversos modos no decorrer do tempo, sendo bastante famosa a Quinta via de Tomás de Aquino e a própria versão de Paley, que será abordada logo abaixo. Apesar das diferenças, pode-se dizer que esse argumento tenta demonstrar que a natureza foi planejada com algum tipo de propósito ou finalidade (daí o nome teleológico), já que quando a contemplamos encontramos sinais nítidos de desígnio.

Os organismos biológicos, especificamente, aparentam em máximo grau terem sido planejados, haja vista a intricada complexidade biológica de seus corpos. No que se segue, apresentarei dois modos distintos de explicar o desenho e a complexidade biológica, a primeira delas invoca um Deus pessoal onipotente, onisciente, onipresente, eterno e sumamente bom (seção 2), enquanto a outra explicação prescinde de um Planejador sobrenatural e se baseia tão-somente em um processo cego sem qualquer tipo de antevisão (seção 3). Pretendo mostrar que essa última explica adequadamente a complexa estrutura biológica do olho5 ao mesmo tempo em que demonstro que não há qualquer evidência de planejamento inteligente desse órgão (seção 4).

(...)"

Para acessar o artigo completo, clique aqui.

O livro completo pode ser encontrado em: http://www.editorafi.org/#!57glaudenir/clqe

sábado, 7 de março de 2015

A Síndrome Zumbi (trecho de um email de Mary Nordby)





Caro David,

[...]. Estamos para iniciar uma nova fase na nossa pesquisa sobre o efeito Nagel e a síndrome zumbi.  Até aqui, a pesquisa experimental passou por três fases principais, e cada umas delas terminou em resultados inteiramente inesperados.

A primeira fase foi a mais divulgada [...]. Finalmente, a NASA tinha construído a primeira Câmara de Distorção Espacial (CDE) e com ela era possível reproduzir boa parte dos efeitos físicos e psicológicos de uma viagem em atalhos de espaço-tempo. Foram feitos vários testes com cobaias e, enfim, chegou a vez dos voluntários humanos. [...] O que ninguém podia prever, todavia, era aquilo que ficou conhecido como 'efeito Nagel'. Quando dois ou mais indivíduos entravam juntos na CDE, ao sair, eles invariavelmente relatavam experiências estranhas. [...] Não demorou muito para a equipe de cientistas concluir que o que estava acontecendo era uma transferência de experiências. Depois de algum tempo na CDE, os indivíduos começavam a ter as sensações dos outros. Felizmente [...], fora da CDE, eles voltavam ao confinamento das suas próprias experiências.

Eu entrei na equipe na segunda fase do estudo do efeito Nagel, juntamente com outros renomados neurocientistas, físicos, médicos e psicólogos [...]. Descobrimos que absolutamente todas as formas de manifestação da consciência eram transferíveis na CDE; emoções, sensações corpóreas, percepções, imagens mentais, e até mesmo pensamentos e raciocínios completos [...]. Além de pessoas com habilidades sensórias comuns, tínhamos também no nosso grupo de teste indivíduos com habilidades sensórias altamente especializadas: músicos, pintores, sommeliers, perfumistas, e até uma eidética. [...] Não podíamos determinar nenhuma conexão física entre os cérebros dos indivíduos, mas podíamos observar claramente os efeitos físicos das interações nas imagens de ressonância magnética. [...] A hipótese explicativa mais cotada naquela época era a de que a distorção do espaço de alguma forma sincronizava os estados dos dois cérebros por alguns segundos. O que nos levou a descartar essa hipótese foram nossas primeiras observações de casos da síndrome zumbi.

[...]. O caso zero ocorreu com um violinista que tínhamos em nosso grupo de voluntários. [...] Ao sair da CDE, ele chorava muito e passou cerca de 5 horas sem conseguir falar. Quando conseguiu articular algumas palavras, não soube explicar o que tinha experimentado, e, só depois de algum esforço, conseguiu dizer que lhe parecia ter ouvido a introdução de Stairway to Heaven, embora, ao mesmo tempo, conforme seu relato, a sensação era muito diferente das sensações sonoras que ele conhecia, na verdade, ela era diferente de tudo que ele conhecia. [...] Algo assim nunca tinha acontecido, mas foi apenas o começo. [...] Só depois de muita discussão, nosso grupo chegou à conclusão de que nosso violinista e outros indivíduos como ele não eram seres 'conscientes' no sentido fenomênico do termo. Quando eles entravam na CDE com humanos conscientes pela primeira vez, a transferência lhes dava a primeira experiência real de suas vidas. Começou aí a terceira fase da pesquisa, o estudo específico da síndrome zumbi.

[...]. Os dados observacionais têm mostrado reiteradamente que, quando um cérebro não consciente recebe uma transferência, a atividade correspondente é detectada nos correlatos neurais da experiência, e o indivíduo tem a experiência. Por outro lado, em testes fora da CDE, vemos que a atividade neuronal sempre aparece junto com a devida estimulação externa, mas o indivíduo relata que não tem a 'super experiência' (é como eles muitas vezes se expressam; nós preferimos 'experiência real'), apenas a 'experiência zumbi' (nós preferimos 'pseudoexperiência'). Isso é o que mais nos intriga. Ainda estamos longe de explicar como é possível haver diferenças na experiência sem que, aparentemente, haja diferenças na atividade neuronal. Outra questão perturbadora é a questão acerca do papel da consciência. Nossos exames não apontam nenhum déficit cognitivo ou funcional dos indivíduos não conscientes em relação aos conscientes. É como se a consciência não fizesse diferença para o desempenho de nenhuma atividade humana, seja corriqueira ou especializada. Ela só faz diferença quando os indivíduos descobrem que não a possuem. Agora mesmo, nós estamos enfrentando uma situação difícil por causa disso. Vários de nossos voluntários não-conscientes desenvolveram um tipo de adição a experiências conscientes e muitos relatam que suas vidas fora da CDE se tornaram insuportáveis. Um deles me declarou recentemente que agora só se sente vivo na CDE. Alguns demonstraram sinais de depressão, e já estão sendo tratados. [...] Não há como deixar todos permanentemente dentro da CDE junto com indivíduos conscientes, e não temos a menor ideia se poderíamos desenvolver um tratamento para a síndrome zumbi. [...]

Bem, de todo modo, a nova fase de estudos que estamos iniciando renova as nossas esperanças. Agora o que precisamos é de avanços teóricos efetivos. De fato, nossa ambição é conseguirmos uma teoria da consciência que explique o efeito Nagel e os sintomas da síndrome zumbi. Com sua entrada na equipe, esperamos fazer mais progressos.

Meus melhores votos!

Mary

sábado, 21 de fevereiro de 2015

EI, VOCÊ EXISTE?


Ei, você existe? Geralmente não nos questionamos isso quando conversamos com um amigo enquanto tomamos uma cerveja gelada num bar. Ou se nós somos da geração saúde, não questionamos isso ao nosso instrutor na academia ou qualquer outra pessoa que se exercite naquela piscina ou quadra em que estamos. Para ser mais abrangente, não nos questionamos sobre isso nem mesmo quanto a qualquer estranho que vemos passando pela rua. No entanto, por mais que pareça, a resposta não é tão óbvia se nos atrevermos a fazer essa questão.

Aliás, se nós formos um pouco mais exigentes, poderíamos formular uma questão um pouco mais embaraçosa e geral: isto existe? Mais constrangedor ainda é a possibilidade de ela ser aplicada a qualquer coisa. No entanto, quando aplicada a nós mesmos, temos um pouco mais de tranquilidade em responde-la. Todavia, por hora nos fixaremos na primeira questão, nomeadamente, “Ei, você existe?”.

Primeiramente, por que nós costumamos achar óbvia a existência do nosso colega ao lado? Ou por que não nos divagamos sobre a existência de nossa namorada ou namorado? Ou mesmo de nossos pais? Porque tomamos como dadas as existências. Ora, nós os vemos, os cheiramos, conversamos com eles, etc. Temos experiências que nos “comprovam”, nos “atestam”, que estão ali em nosso contato. Então, depois que atestamos isso, facilmente esquecemo-nos da inquietação e seguimos nossa vida tranquilamente.

Em segundo lugar, por que a resposta não é tão óbvia? Para tanto, precisamos compreender como estamos lidando com o termo “existência”.

Comumente, quando dizemos “isto existe” e apontamos, por exemplo, para um lápis vermelho à nossa frente, nós temos a intenção de dizer que aquele lápis vermelho existe “fora” de nós. Temos a intenção de dizer que o lápis vermelho existe no tempo e no espaço (tempo-espaço). De alguma forma, aquele lápis vermelho permaneceria no tempo e no espaço ainda que nós não existíssemos mais. Isto é, se morrermos, o lápis vermelho continua existindo. Salvo se nada o destruir, claro. Em contrapartida, quando alguém nos diz “não, isso não existe”, tem uma intuição parecida, mas ao inverso, a saber, esse lápis não existe “fora” de você. Ele não existe no tempo e no espaço independentemente de você. Se você morrer, o lápis deixa de existir. Ou seja, o lápis vermelho é “coisa da sua imaginação”.

Sendo assim, quando perguntamos se a pessoa com quem conversamos existe, estamos a perguntar se ela existe independentemente de nós. Indagamos se ela não é “coisa da nossa imaginação”. Queremos saber se ela não é “nós”, mas se ela é ela mesma além de nós. Queremos saber se há um outro – noutras ocasiões, se há um Outro. Entretanto, como percebemos anteriormente, logo esta inquietação se vai quando atestamos sua existência através de nossas percepções.

Mesmo assim, ainda não é uma resposta tão óbvia como parece. Como? Vejamos.

Quando nós temos experiências sobre qualquer coisa do mundo, dizemos que são nossas experiências. Seja o gosto do café, seja ao ouvir Bethoveen ou Lady Gaga. Quer seja o sabor do chocolate ou o azul do céu. Muito embora nós digamos que são experiências DE algum objeto que julgamos estar FORA de nós. Ainda assim as experiências são NOSSAS. Consideramos as nossas experiências partes de nós. Fatalmente, as nossas experiências são constituidoras do que nós somos.

Ao passo que nós compreendemos esse detalhe das nossas experiências, parece interessante quando somamos isto ao fato de como nós acreditamos obter algum conhecimento sobre qualquer coisa fora de nós. Qualquer coisa sobre o mundo que chamamos de mundo físico, mundo material, etc. Nesse momento serei breve para os intentos do questionamento, todavia este é um ponto que mereceria aprofundamento e fica para uma outra hora.

O primeiro passo do conhecimento que temos sobre o mundo e qualquer coisa contida nele é a experiência. Como por exemplo você ou aquela pessoa a quem pensou há pouco. Há quem diga que o conhecimento também se dá por estruturas internas a nós e que são anteriores a experiência. Não há problema algum quanto a isso, muito embora não nos aprofundaremos nisso e nem nos comprometeremos com essa hipótese para os fins de nosso questionamento.

Em algum momento da nossa experimentação das sensações, nós damos a estas experiências objetos aos quais elas são subordinadas. Como o gosto do chocolate o qual subordinamos ao próprio chocolate que adquirimos. Como o gosto do beijo da pessoa que amamos o qual subordinamos àqueles lábios que nos interessam. Sem problema algum damos esse salto. O salto entre a nossa experiência e qualquer coisa além de nós mesmos. Aqui reside a “desobviedade” do “ei, você existe?”.

O que nos garante dar este salto? Todas as sensações são nossas. Constituidoras do que chamamos de “eu”, muito provavelmente. São sensações da primeira pessoa. Nesse sentido, estamos cercados por experiências de primeira pessoa. Como extrapolamos a primeira pessoa? O que temos do outro são experiências nossas, não o outro mesmo, não a primeira pessoa da terceira pessoa. Por mais que possamos diminuir a exigência, ao invés de exigir a primeira pessoa da terceira pessoa, e simplesmente exigirmos apenas a terceira pessoa da terceira pessoa, ainda assim resiste a questão: é mesmo uma terceira pessoa? Afinal, as experiências que temos se resumem a dados de nossa primeira pessoa. Como extrapolamos a experiência que temos do lápis vermelho para a existência fora de nós do próprio lápis vermelho se nós temos acesso ao lápis vermelho apenas pela nossa experiência?

Nesse sentido, o mundo é uma conjectura que salta às nossas experiências. Se não é óbvio o salto da experiência para o mundo além da experiência, não é óbvia a existência quer seja do lápis vermelho, quer seja de você. Ao menos para mim, eu sou minha única garantia. O mesmo para você partindo de você. Então, para você, não é óbvia a minha existência.

Há um caminho de responder o questionamento, e um caminho costumeiramente trilhado por muitos. Tratamos da questão da intersubjetividade. Ou seja, assumimos que o outro existe, o outro assume que nós existimos, então das nossas experiências comuns julgamos o que existe fora de nós. Se uma experiência é dita parecida para um grande número de pessoas através de um acesso pela maior quantidade de sentidos, damos ao objeto que supomos subordinado a tal experiência uma existência. Se um indivíduo tem experiências que não são parecidas com a maioria e que não são acessadas pela maioria por uma gama de sentidos, então o objeto subordinado à experiência daquele indivíduo é coisa da cabeça deste indivíduo.  Depois de um bom tempo, isso passa a ser tão automático que nós esquecemos o acordo que assumimos no início, o da existência mútua, e então pensamos que podemos asseverar obviamente que o outro existe porque nós temos experiências comuns que outros existem. Nesses momentos vale a pena questionar: Ei, você existe?
Por: Marcos Paulo Souza Caetano

Workshop sobre Filosofia da Informação


 

O Workshop sobre Filosofia da Informação é um evento conjunto do grupo de Lógica e Inteligência Artificial - LOGIA (Computação - UFC) e do grupo Pensamento, Cognição e Linguagem - PenCogLing (Filosofia - UFC).
É o segundo Workshop Científico realizado pelo LOGIA, e o primeiro em parceria com o PenCogLing. O Workshop será realizado na Sala de Seminários do bloco 952, no Campus do Pici. Teremos seções no dia 05 de Março (manhã e tarde) e no dia 06 de Março (manhã), e começaremos com uma palestra do prof. Bernardo Alonso (Filosofia - UFMT). Todos estão convidados.

Para mais informações, veja a página do evento:
http://www.lia.ufc.br/~logia/workshopii/

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

And the Shock goes to... Derek Parfit

                                                                                                                                                                           
Em 2011, anunciei aqui o resultado do prêmio Shock de Lógica e Filosofia, considerado uma espécie de Nobel da Filosofia. Naquele ano, o vencedor foi o filósofo estadunidense Hilary Putnam (para mais detalhes, veja a postagem de 2011). Volto agora para anunciar o resultado da última premiação, ocorrida no ano passado (2014). O vencedor foi o filósofo britânico Derek Parfit, Professor Emérito da Universidade de Oxford (UK). O site do Shock (http://www.rolfschockprizes.se/engelskasidor/home.1_en.html), justifica o prêmio dizendo que ele foi atribuído ao professor Parfit “for his ground-breaking contributions concerning personal identity, regard for future generations and analysis of the structure of moral theories”. As principais obras do professor Parfit são: Reasons and Persons (1984) e On What Matters (2011).

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

As dúvidas do rei Epoqueu




O rei Epoqueu era sempre assaltado por inúmeras dúvidas. Consta que vivia cercado de conselheiros para aplacar suas inquietações, homens que os anos de leitura fizeram sobremaneira doutos e curvados. As questões do rei eram as mais diversas. “Por que as macieiras dão maçãs e não uvas?”, “Onde está o Sol à meia-noite?”, “É possível construir um quadrado com a mesma área de determinado círculo usando para isso apenas compasso e régua?”, "O camponês que atravessa a ponte monta um burro ou um jumento?", "O que faz com que as coisas belas sejam belas?".

Com o tempo ficou claro para todos que ninguém era capaz de responder igualmente bem todas as perguntas do rei. O melhor era tratar o negócio das dúvidas reais como os artesões tratam o negócio das artes práticas. O sapateiro não precisa ser ferreiro, e tampouco o carpinteiro precisa saber tecer meias de lã. Mas cada artífice esforça-se para ser exímio na arte que lhe compete. Era assim nas artes, seria assim no ofício dos conselheiros do rei. A ideia veio já ornada com uma proposta de classificação de questões que, depois de não poucas disputas, foi aceita e lavrada nos anais do conselho real sob o enganosamente portentoso título de "Sobre a questão das questões".

Em breves termos, os conselheiros concordavam que havia quatro categorias de questões que o rei soía fazer: 1. Questões que podem ser respondidas pela observação simples (como a questão da montaria do camponês); 2. Questões cuja resposta requer um aumento dos poderes de observação do homem (como a questão da macieira e a do Sol); 3. Questões que podem ser respondidas com métodos matemáticos (como a questão do quadrado); 4. Questões que não podem ser respondidas satisfatoriamente por nenhum tipo de observação e por nenhum método matemático (como a questão da beleza). Por ocasião da dieta dos conselheiros, sugeriu-se timidamente que o quarto tipo de questão talvez devesse ser descrito apenas como: "Questões que não podem ser respondidas". Mas essa sugestão não passou de um breve rumor, uma vez que - a gente sábia lembrou - o rei tinha as dúvidas, e exigia as respostas. Dessa forma, definiram-se as questões. E para que melhor fossem respondidas, dividiram os conselheiros por quatro colégios, cada um especializado em uma das quatro categorias de questões: o colégio dos observadores, o colégio dos metaobservadores, o colégio dos calculistas e o colégio dos teorizadores puros.

Epoqueu fazia suas indagações e os conselheiros porfiavam em dar a melhor resposta. Não era fácil todavia. Em primeiro lugar, a resposta tinha que ser clara e expedita, pois o rei não tolerava algaravia. Era célebre o caso do conselheiro que tentou explicar-lhe uma vez por que as estrelas piscam fazendo menção às transformações dos bólidos gélidos, monolíticos, obnóxios e onfalóides, mostrando ao final que as estrelas não existem, que existe apenas uma interminável sucessão de aparecimentos rápidos de bólidos e não-bólidos, os quais são a mesma coisa sub specie aeternitatis. Horrorizado com essa explicação, Epoqueu transferiu o conselheiro para o açougue real, onde foi ajudar no enchimento das linguiças.

Em segundo lugar, a resposta devia sempre estar apoiada em boas razões. Seria tolice dar uma resposta sem justificá-la, e obviamente nem tudo contava como justificativa válida. Por exemplo, não era considerado válido justificar uma opinião simplesmente por apontar que todo o vulgo a tem, ou que eminente sábio a tinha. O rei era muito sagaz e desconfiado e nunca abraçava uma crença apenas baseado no número dos que a têm ou na estatura dos que a tinham. Esperava-se que os conselheiros apoiassem suas teorias em outra variedade de razões. Aos observadores, pedia-se observações; aos metaobservadores, pedia-se teorias e metaobservações; aos calculistas, pedia-se cálculos; e aos teorizadores puros pedia-se argumentos.

Em terceiro lugar, o proponente da resposta devia antever objeções. Não poderia ser de outra forma, desde que existia uma franca disputa entre os conselheiros para dar a explicação mais convincente, e, nesse afã, punham redobrado zelo em desacreditar as respostas de seus pares. Todas as disputas eram travadas diante do rei, para que, ao final, ele pudesse fazer seu juízo e decidir qual resposta era mais plausível.

Figurativamente, o conselho do rei Epoqueu era uma máquina de respostas. Suas alavancas eram mentes, seus pesos e contrapesos eram ideias, suas engrenagens eram inferências, seu combustível eram dúvidas. Uma vez o rei indagou desse formidável engenho pensante se todas, e apenas, as respostas de mecanismos que operassem dessa mesma forma seriam racionais. A resposta, apoiada em todas as ponderações e minúcias requeridas, foi unanimemente 'sim'. Epoqueu imaginou então por um momento um outro rei, monarca de um reino ignoto, assistido por um conselho com procedimentos e regras totalmente diferentes das de seu próprio. Ele pensou que, se tal rei fizesse ao seu conselho a mesma pergunta sobre a pureza e completude da racionalidade de suas respostas, obteria dele a mesma resposta 'sim'. Logo em seu coração surgiu o desejo de saber se poderia ter alguma garantia de que a resposta do conselho real era mais segura do que a do imaginário. Não quis, porém, formular essa questão para sua máquina de respostas. Ele refletiu e pensou que até a razão tem limites. 

Epoqueu foi pródigo em dúvidas até o fim dos seus dias.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Teoria Atômica, Biologia Evolutiva e Consciência – Resenha de “Consciência e seu lugar na natureza” (SEARLE, 1992, cap. 4)


O principal problema da área Filosofia da Mente é o chamado problema mente-corpo (alguns diriam mente-cérebro), que pode ser formulado de vários modos, mas, para o que nos interessa aqui, pode-se apresentá-lo da seguinte forma: qual é a relação entre os processos e estados mentais, por um lado, e os processos e estados físicos, por outro, ou seja, onde situar a mente na natureza? Muitas foram – e são (!), trata-se de um campo com intensos e empolgantes debates atuais – as respostas e teorias propostas para solucionar este problema filosófico.
No que se segue, apresentarei algumas ideias do filósofo norteamericano John Rogers Searle (1932- ), professor da Universidade da Califórnia (Berkeley), que propôs uma teoria denominada Naturalismo Biológico como solução ao problema mente-corpo. Para tanto, utilizarei o capítulo 4 de seu influente livro A Redescoberta da Mente, publicado originalmente em 1992, pela editora do Massachusetts Institute of Technology. O roteiro geral será o seguinte: inicialmente, Searle aborda o que é consciência para, logo em seguida, encaixá-la no quadro conceitual da visão de mundo científica, mostrando, por fim, a vantagem seletiva da consciência.
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